
Diretivas antecipadas de vontade no Alzheimer: como fazer no Brasil
Decisões sobre intubação, alimentação por sonda e cuidados paliativos são pesadas — e ficam impossíveis quando o Alzheimer avança. Veja como deixar tudo registrado enquanto há tempo.
Diretivas antecipadas de vontade (DAV) são instruções escritas que a pessoa deixa enquanto ainda tem capacidade plena de decisão, dizendo o que aceita ou recusa em tratamentos médicos quando não puder mais se expressar — entubação, ressuscitação, alimentação por sonda, internação em UTI. No Brasil, valem desde 2012 (Resolução CFM nº 1.995/2012). No Alzheimer, fazer a DAV na fase leve é uma das decisões mais protetoras que a pessoa pode tomar pela sua família.
Pontos principais deste artigo:
- O que são diretivas antecipadas de vontade (DAV) e o que dizem a lei brasileira e o CFM
- Por que fazer cedo no Alzheimer — antes da fase moderada
- O que pode constar em uma DAV (e o que não pode)
- Passo a passo para registrar a DAV no Brasil, sem cartório
- Procurador de saúde: quem decide quando você não consegue mais
- DAV, curatela e testamento — três instrumentos diferentes que se completam
O que são diretivas antecipadas de vontade?
A DAV é um documento — escrito ou registrado em prontuário — em que uma pessoa adulta e capaz declara antecipadamente:
- Quais tratamentos aceita ou recusa caso fique gravemente doente e sem possibilidade de cura
- Quem ela autoriza a tomar decisões médicas em seu nome (o procurador de saúde)
- Onde prefere ser cuidada nos últimos dias (casa, hospital, hospice)
A base jurídica brasileira é a Resolução CFM nº 1.995/2012, que torna a DAV vinculante para o médico que assistir o paciente. Não é uma lei federal específica — é uma resolução do Conselho Federal de Medicina, mas tribunais brasileiros vêm reconhecendo sua validade.
Não confunda DAV com:
- Testamento — distribui bens após a morte, não trata de saúde
- Curatela — instituída pela Justiça, depois que a pessoa já perdeu a capacidade. Saiba mais sobre quando a curatela é necessária no Alzheimer
- Eutanásia ou suicídio assistido — proibidos no Brasil. A DAV permite recusar tratamentos, não pedir antecipação da morte
Por que fazer a DAV cedo no Alzheimer
A janela útil é estreita. Para que a DAV seja válida, a pessoa precisa estar com capacidade civil plena no momento da assinatura. Na demência:
- Fase leve: capacidade ainda preservada na maior parte dos casos. É aqui que a DAV deve ser feita.
- Fase moderada: capacidade comprometida; a DAV pode ser questionada juridicamente
- Fase avançada: sem capacidade — a DAV não pode mais ser feita pela própria pessoa
Confira os estágios da demência e o que esperar em cada um para entender em que ponto sua família está.
A regra prática: assim que o diagnóstico de Alzheimer ou outro tipo de Demência for confirmado, agende em até 6 meses uma conversa estruturada sobre DAV com o idoso, a família e idealmente o médico assistente. Esperar é um dos arrependimentos mais frequentes em famílias que acompanhamos.
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O que pode constar em uma DAV
Uma DAV pode ser tão simples ou detalhada quanto a pessoa quiser. Os pontos mais comuns:
Decisões em cenários de fim de vida:
- Aceita ou recusa intubação orotraqueal (entubação) e ventilação mecânica
- Aceita ou recusa reanimação cardiopulmonar (RCP) em parada cardíaca
- Aceita ou recusa alimentação por sonda (gastrostomia ou nasogástrica)
- Aceita ou recusa internação em UTI quando o quadro é considerado terminal
- Aceita ou recusa transfusão de sangue (relevante para Testemunhas de Jeová)
- Prefere cuidados paliativos em casa quando o tratamento curativo não for possível
Decisões sobre conforto:
- Aceita medicação para controle de dor mesmo que reduza o nível de consciência
- Prefere o ambiente da casa, de uma ILPI específica ou de um hospice
- Tem desejos espirituais ou religiosos (acompanhamento por sacerdote, rituais)
Decisões sobre informação:
- Quer saber sobre o próprio diagnóstico e prognóstico, ou prefere que apenas a família saiba
- Autoriza ou não pesquisas médicas usando seu caso
O que NÃO pode constar: pedidos contrários à lei brasileira (eutanásia, suicídio assistido) e instruções vagas demais para guiar uma decisão clínica ("quero o melhor possível"). Quanto mais específica, mais útil.
Como fazer a DAV no Brasil — passo a passo
A boa notícia: não precisa de cartório, advogado nem documento padrão. A DAV pode ser feita de várias formas, em ordem crescente de robustez:
Opção 1 — Registro em prontuário médico
Como funciona: a pessoa conversa com o médico assistente (geriatra, neurologista, médico de família) e o médico registra a DAV em prontuário, com data e assinatura do paciente.
Vantagem: simples, gratuito e fica anexada ao prontuário onde o tratamento será tomado.
Desvantagem: se o paciente for atendido em outro hospital, a DAV pode não estar acessível.
Opção 2 — Documento escrito assinado em casa
A pessoa redige em papel comum (ou usa um modelo da ABRAz — Associação Brasileira de Alzheimer ou da Defensoria Pública). Inclui:
- Nome completo, RG, CPF, endereço
- Declaração de capacidade ("declaro estar em pleno uso de minhas faculdades mentais")
- Decisões específicas (ver seção anterior)
- Nome do procurador de saúde (próxima seção)
- Local, data e assinatura
- Idealmente, duas testemunhas (não obrigatório pela CFM, mas reforça a validade jurídica)
Distribui cópias para: o procurador de saúde, o médico assistente, e mantém uma na pasta de saúde do idoso.
Opção 3 — Documento registrado em cartório
Lavrar uma escritura pública declaratória em cartório de notas. Custa entre R$ 80 e R$ 250 dependendo do estado. Vantagem: máxima força jurídica. Desvantagem: custo e burocracia. Recomendado quando há histórico de conflito familiar ou patrimônio relevante.
Opção 4 — Procuração específica para saúde
Outorgar uma procuração com poderes específicos para decisões de saúde ao procurador escolhido. Pode ser pública (cartório) ou particular. Cobre o que a DAV em si não cobre: representação legal em hospitais, planos de saúde, INSS.
A combinação ideal para uma família com idoso recém-diagnosticado: Opção 1 + Opção 2 + Opção 4 (registro em prontuário + documento escrito em casa + procuração para saúde para o cuidador principal).
Procurador de saúde: quem decide quando o idoso não consegue mais
Tão importante quanto a lista de "quero/não quero" é quem fala quando o idoso não puder. O procurador de saúde é a pessoa designada na DAV para tomar decisões médicas em nome do paciente.
Quem deve ser:
- Alguém de confiança absoluta — geralmente o cônjuge, um filho ou um irmão
- Que more próximo o suficiente para chegar ao hospital em horas, não dias
- Que conheça os valores e desejos do idoso — não basta ser parente
- Que tenha estômago para decisões duras sob pressão e à noite
Cuidados importantes:
- Avise a pessoa antes de incluí-la na DAV. Não é justo descobrir o papel em uma emergência
- Nomeie um suplente caso o procurador principal esteja indisponível
- Não nomeie pessoas com conflitos de interesse (herdeiro com pressa, ex-cônjuge ressentido)
DAV, curatela e testamento: três instrumentos, três momentos
Confunde muita gente. A diferença prática:
| Instrumento | Quando vale | Quem assina | Para quê |
|---|---|---|---|
| DAV | Pessoa ainda com capacidade, decidindo sobre o futuro | A própria pessoa | Decisões médicas no fim de vida |
| Procuração para saúde | Imediatamente, mas usada só quando a pessoa não puder decidir | A própria pessoa, em vida e capaz | Representação legal em saúde |
| Curatela | Depois da perda de capacidade, decretada pelo juiz | O juiz nomeia um curador | Atos da vida civil (banco, contratos, INSS) |
| Testamento | Após a morte | A própria pessoa, em vida | Distribuição de bens |
Ordem ideal de planejamento para uma família com Alzheimer recém-diagnosticado:
- DAV + procuração para saúde — nas primeiras semanas após o diagnóstico
- Testamento — no mesmo período, para evitar inventário longo
- Organização de patrimônio — saiba como proteger o patrimônio do idoso e evitar golpes
- Curatela — só quando a capacidade já estiver perdida e houver atos civis pendentes (compra/venda de imóvel, ações judiciais, internação compulsória)
5 perguntas para conversar em família antes de assinar
A DAV não é só um papel. É uma conversa adiada por décadas. Cinco perguntas para abrir essa conversa, idealmente em uma tarde tranquila com café:
- "Se um dia eu não puder mais comer pela boca, eu quero ser alimentado por sonda?" — talvez a decisão mais importante na demência avançada
- "Se meu coração parar e eu já estiver na fase final, vocês querem que tentem reanimar?" — RCP em pessoa idosa fragilizada raramente termina bem
- "Prefiro morrer em casa ou no hospital?" — saiba mais sobre cuidados paliativos na demência
- "Quem confio para decidir por mim — e quem prefiro que NÃO decida?" — explicitar os "não" evita conflitos depois
- "O que daria mais paz para vocês se um dia eu não puder mais falar?" — a DAV serve tanto à pessoa quanto à família que vai ter de decidir
Não precisa fechar tudo na primeira conversa. Esses temas precisam de respiros.
Quando a DAV entra em vigor (e quando não vale)
A DAV é acionada quando duas condições se cumprem:
- A pessoa perdeu a capacidade de comunicar suas decisões médicas (avaliada pelo médico assistente)
- O quadro clínico é terminal ou irreversível — não se aplica a episódios temporários como uma infecção tratável
Quando a DAV não vale ou pode ser questionada:
- Foi feita já na fase moderada/avançada da demência (capacidade duvidosa)
- Há indícios de coação por familiares ou cuidadores
- Conflita com a vontade atual do paciente (se ele puder ainda se expressar mesmo que parcialmente, a vontade atual prevalece)
- Pede algo proibido por lei (eutanásia)
- O médico responsável tem objeção de consciência e outro médico não pode ser chamado em tempo (cenário raro)
A DAV pode ser revogada ou alterada a qualquer momento pela própria pessoa, enquanto tiver capacidade. Recomenda-se revisar a cada 2 anos ou após mudanças importantes (novo diagnóstico, perda de cônjuge, mudança de cidade).
Se você está acompanhando uma pessoa recém-diagnosticada com Alzheimer ou outro tipo de Demência e ainda não conversaram sobre DAV, comece esta semana. A janela de capacidade fecha mais cedo do que a maioria das famílias imagina. Conheça como o Kuidar+ apoia famílias na coordenação remota do cuidado ou o guia de recursos para demência da sua cidade.
Fontes consultadas:
- Conselho Federal de Medicina — Resolução CFM nº 1.995/2012 sobre diretivas antecipadas de vontade
- Conselho Federal de Medicina — Resolução CFM nº 2.232/2019 sobre recusa terapêutica
- Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz) — orientações jurídicas para famílias
Sobre o autor
Equipe especializada em cuidados de demência da Kuidar+
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