Escaras em Idoso Acamado: Guia Completo para Prevenir e Tratar
Escaras aparecem rápido em idosos acamados com demência. Veja como identificar cada estágio, reposicionar corretamente e evitar infecções graves.
Quando um familiar com Alzheimer ou outro tipo de demência deixa de andar e passa a maior parte do tempo na cama ou na cadeira de rodas, o risco de escaras — também chamadas de úlceras por pressão — aumenta de forma significativa. A pele de idosos é mais fina, a circulação costuma estar comprometida, e a pessoa não consegue sentir ou comunicar o desconforto causado pela pressão prolongada em pontos do corpo. O resultado é que uma ferida pode se formar em questão de horas e se aprofundar rapidamente se não for identificada e tratada. Este guia explica por que isso acontece, como reconhecer cada estágio da escara, o que fazer a cada dois horas para prevenir, e quando a situação exige avaliação médica imediata.
Por que escaras se formam tão rápido em pessoas com demência
A escara é causada pela pressão contínua sobre um ponto da pele que fica comprimido entre o peso do corpo e uma superfície dura — colchão, cadeira, travesseiro. Essa pressão reduz o fluxo de sangue para os tecidos; sem oxigênio e nutrientes, as células começam a morrer. Em adultos jovens e saudáveis, o desconforto avisa e a pessoa muda de posição instintivamente. Em idosos com demência, esse mecanismo de alerta está comprometido por duas razões principais: a doença reduz a percepção da dor e o impulso de mover o próprio corpo, e a imobilidade progressiva retira a capacidade física de se virar.
Outros fatores que aceleram o processo incluem pele seca ou friável, incontinência (umidade constante macera a pele), baixo peso ou perda muscular (menos tecido para proteger os ossos), e febre ou infecção ativa. Idosos em uso de certos medicamentos — como corticosteroides — também têm pele mais vulnerável. Tudo isso significa que a janela de prevenção pode ser muito curta: uma tarde inteira sem reposicionamento pode ser suficiente para iniciar uma lesão nos calcâneos.
Os 4 estágios e como identificar cada um
A classificação de escaras mais usada internacionalmente — do National Pressure Injury Advisory Panel (NPIAP), adotada também pelo Ministério da Saúde — divide as úlceras por pressão em quatro estágios, além de duas categorias adicionais (não classificável e lesão tissular profunda). Para o cuidador domiciliar, os quatro estágios são o guia prático:
Estágio 1 — Pele intacta com vermelhidão: a pele não está quebrada, mas apresenta uma área avermelhada que não embranquece quando você pressiona com o dedo (chamamos isso de hiperemia não reativa). Em peles mais escuras, pode aparecer como uma mancha mais escura, azulada ou roxa. A região pode estar quente ou endurecida ao toque. Esse é o momento ideal para agir — a lesão ainda pode regredir completamente sem deixar cicatriz.
Estágio 2 — Perda parcial da pele: a camada superficial (epiderme) e parte da derme estão comprometidas. Aparece como uma bolha preenchida de líquido, uma erosão rasa ou uma úlcera úmida de fundo róseo. Não há tecido desvitalizado (necrose). A dor pode estar presente, mas em pessoas com demência avançada não há como confiar nisso como sinal.
Estágio 3 — Perda total da pele: a ferida atinge o tecido subcutâneo (gordura). Pode haver tecido necrótico amarelado (esfacelo) no leito da ferida, bordas irregulares e às vezes tunelizações — canais que se aprofundam sob a pele. Neste estágio, o risco de infecção é alto e o tratamento exige avaliação profissional.
Estágio 4 — Exposição de músculo, tendão ou osso: a ferida é profunda e pode expor estruturas nobres. O risco de infecção grave, incluindo osteomielite (infecção óssea), é elevado. Internação hospitalar é frequentemente necessária.
Há ainda a lesão tissular profunda — uma área de descoloração vermelho-escura ou roxa sobre a pele intacta que indica dano nos tecidos profundos. Pode parecer inofensiva mas piorar rapidamente para um estágio 3 ou 4 em dias.
Leia o Guia do Cuidador
Orientações práticas para cuidadores de pessoas com demência, capítulo por capítulo
Acessar o guia gratuitoMapa completo: onde inspecionar o corpo todo dia
A inspeção diária da pele deve ser sistemática e cobrir todos os pontos de pressão. Os locais mais vulneráveis em idosos acamados são:
- Sacro e cóccix (base da coluna, na região das nádegas) — o local mais comum de escara em pessoas acamadas
- Calcâneos (parte de trás dos calcanhares)
- Quadris (trocânter maior, a saliência óssea lateral do quadril)
- Tornozelos e maléolos (ossos que saem dos lados do tornozelo)
- Joelhos (face interna, quando as pernas ficam em contato)
- Cotovelos (em posição sentada reclinada)
- Omoplatas e coluna vertebral (em decúbito dorsal)
- Occipital (parte de trás da cabeça) — frequentemente esquecido
- Orelhas (em pessoas que ficam muito de lado)
Use uma lanterna se necessário. Em pessoas com incontinência, inspecione também as dobras inguinais e a região perianal. Estabeleça um horário fixo — por exemplo, durante o banho ou a troca de fralda — para não esquecer.
Reposicionamento a cada 2 horas: como fazer corretamente
O protocolo padrão internacional recomenda reposicionar o idoso acamado a cada duas horas durante o dia e a cada quatro horas à noite (com vigilância). O ponto mais importante que muitos cuidadores não sabem: o ângulo correto é 30°, não 90°.
Quando o idoso é virado a 90° (completamente de lado), o peso do corpo concentra-se totalmente sobre o trocânter — a saliência do quadril — criando pressão intensa exatamente sobre um dos pontos mais vulneráveis. A posição de 30° (levemente inclinado, com travesseiros dando suporte às costas e entre os joelhos) distribui o peso de forma muito mais eficiente.
Sequência de posicionamento:
- Decúbito dorsal (de costas) com leve elevação da cabeceira (≤30° para quem tem risco de aspiração; até 45° se necessário durante e após refeições, mas retorne depois)
- Decúbito lateral direito a 30° — coloque uma almofada firme atrás das costas para manter o ângulo, e uma almofada entre os joelhos para evitar que os ossos se pressionem
- Decúbito lateral esquerdo a 30° — mesma técnica
Os calcâneos devem ficar sempre suspensos — use uma almofada sob as panturrilhas, nunca sob os calcanhares diretamente, para elevar os pés sem criar novo ponto de pressão. Nunca deixe o idoso apoiado diretamente sobre uma escara existente.
Anote os horários em uma folha simples colada na parede — isso facilita a passagem de plantão entre cuidadores e evita que a rotina seja esquecida.
Nutrição e hidratação: o suporte invisível da cicatrização
A pele não se regenera sem matéria-prima. Dois nutrientes são especialmente críticos:
Proteína: é o bloco de construção da pele e dos tecidos. Idosos com escaras têm necessidade proteica aumentada — em torno de 1,2 a 1,5 g por quilo de peso corporal por dia. Para uma pessoa de 50 kg, isso equivale a pelo menos 60 g de proteína diária. Fontes acessíveis: ovos, frango, peixe, feijão com arroz, iogurte natural, queijo.
Hidratação: pele desidratada perde elasticidade e resistência. O objetivo é pelo menos 1,5 litros de líquido por dia — água, sucos, sopas, chás. Em pessoas com disfagia (dificuldade para engolir), use espessante conforme orientação do fonoaudiólogo.
Vitamina C e zinco também contribuem para a cicatrização e estão presentes em frutas cítricas, vegetais verde-escuros e carnes. Se o idoso estiver comendo muito pouco, converse com o médico ou nutricionista sobre suplementação.
O que fazer quando encontrar uma lesão: protocolo passo a passo
Estágio 1: remova a pressão do local imediatamente. Cubra com curativo de hidrocoloide ou espuma de poliuretano (disponíveis em farmácias) para proteger a pele. Reforce o reposicionamento. Reavalie em 24 horas — se não melhorar, contacte o médico ou enfermeira.
Estágio 2: lave gentilmente com soro fisiológico (solução salina 0,9%) ou água limpa corrente. Cubra com curativo não aderente ou hidrocoloide. Não esfregue. Não use esparadrapo diretamente sobre a lesão. Anote o tamanho e fotografe para acompanhar a evolução. Comunique ao médico na próxima consulta ou antes, se piorar.
Estágios 3 e 4 / suspeita de infecção: ligue para o médico ou enfermeira no mesmo dia. Sinais de infecção incluem calor, vermelhidão ao redor da ferida, secreção com odor ou cor (amarelo-esverdeado), febre, piora da confusão mental ou agitação do idoso. Essas situações exigem avaliação presencial e possivelmente antibioticoterapia. Saiba que agitação e confusão repentinas podem ser o único sinal de infecção em pessoas com demência avançada.
Se o idoso apresentar febre alta, secreção abundante e purulenta, ou sinais de sepse (calafrios, hipotensão, prostração intensa), ligue imediatamente para o SAMU (192) — infecção de escara pode evoluir para septicemia em poucas horas.
Quando o cuidado de feridas em casa se torna difícil de sustentar — trocas de curativo frequentes, visitas domiciliares de enfermagem, avaliação de estomaterapeuta —, o Guia de Recursos para Demência lista serviços públicos e privados de atenção domiciliar por capital brasileira.
Produtos: o que usar e o que evitar
Use:
- Soro fisiológico 0,9% para limpeza
- Curativos de hidrocoloide (para estágios 1-2 sem infecção)
- Curativos de espuma de poliuretano (para absorção de exsudato)
- Creme barreira de óxido de zinco (para proteger a pele íntegra ao redor — não dentro da ferida)
- Ácidos graxos essenciais (AGE) em spray ou creme para hidratação preventiva da pele sã
Evite:
- Talco: resseca excessivamente e pode acumular entre dobras, aumentando o risco de maceração
- Álcool: destrói as células em regeneração e é extremamente doloroso
- Povidona-iodo (Povidine) de forma crônica: em uso prolongado, é citotóxico para tecidos em granulação e prejudica a cicatrização — pode ser usado pontualmente em infecção bacteriana confirmada, mas nunca como curativo de rotina
- Esparadrapo sobre a pele frágil: ao remover, causa novas lesões por cisalhamento
- Gelo ou calor direto: ambos agravam a lesão
A linha entre prevenção e tratamento
Prevenção é tudo o que fazemos antes de haver lesão: reposicionamento, inspeção diária, nutrição, hidratação, colchão adequado (colchão de espuma viscoelástica ou de ar reduz significativamente a pressão de interface). Tratamento começa quando a pele já está comprometida e exige protocolo de curativo, acompanhamento da evolução e — a partir do estágio 2 — envolvimento de profissional de saúde.
Para idosos com demência avançada e acamados, a prevenção é sempre a estratégia mais eficaz. Uma escara de estágio 3 ou 4 pode levar semanas ou meses para cicatrizar, causando dor e sofrimento que a pessoa com demência pode não conseguir expressar com palavras, mas que frequentemente se manifesta como agitação, recusa alimentar ou choro. Fique atento a esses sinais: aprenda mais sobre como reconhecer dor não verbalizada em pessoas com demência para identificar o desconforto antes que ele se intensifique. Em demência em fase avançada, quando a decisão passa a ser priorizar conforto em vez de cura, vale entender também o que dizem os cuidados paliativos na demência sobre manejo de feridas e dor no fim da vida.
Perguntas frequentes (FAQ)
Como tratar uma escara de grau 4?
Escara de estágio (ou "grau") 4 expõe músculo, tendão ou osso e não se trata em casa. É preciso avaliação presencial no mesmo dia — médico, enfermeira estomaterapeuta ou pronto-socorro. O tratamento costuma envolver desbridamento do tecido morto (feito por profissional), curativos avançados trocados com frequência definida pela equipe de saúde, controle de infecção (às vezes com antibiótico) e, em muitos casos, internação. Enquanto aguarda atendimento, remova toda pressão do local e não tente limpar ou cobrir a ferida sozinho além de uma proteção simples.
Quanto tempo demora para uma escara cicatrizar?
Depende do estágio. Uma escara de estágio 1, tratada logo no início, pode regredir em poucos dias sem deixar marca. Estágio 2 costuma levar de 1 a 3 semanas com curativo adequado. Estágios 3 e 4 levam tipicamente de 2 a 6 meses, e algumas não fecham completamente enquanto a causa de base (imobilidade, desnutrição) não for corrigida. Não existe atalho seguro para "curar rápido" uma escara já formada — o que existe é evitar que ela piore enquanto cicatriza, o que já é, por si, o principal fator de sucesso.
Escara no calcanhar ou no cóccix exige cuidado diferente?
O princípio é o mesmo (remover pressão, manter limpo, cobrir com curativo adequado), mas a técnica muda. No calcanhar, a prioridade é manter o pé totalmente suspenso — sem nenhum contato com o colchão — usando uma almofada sob a panturrilha. No sacro e cóccix, a prioridade é o reposicionamento a 30° descrito acima, já que essas áreas concentram peso mesmo com o idoso "de costas".
Qual a diferença entre escara e assadura (dermatite)?
Assadura é uma irritação da pele causada por umidade e atrito — comum em quem usa fralda — e costuma ser superficial, avermelhada e difusa, sem relação direta com pontos de pressão óssea. Escara é causada por pressão contínua sobre um ponto específico do corpo e pode aprofundar-se até o osso. As duas podem coexistir: a pele já irritada pela umidade fica mais vulnerável a desenvolver uma escara no mesmo local.
Fontes consultadas:
- National Pressure Injury Advisory Panel (NPIAP) — Prevention and Treatment of Pressure Ulcers/Injuries: Clinical Practice Guideline
- Ministério da Saúde — Protocolo para Prevenção de Úlcera por Pressão
- Associação Brasileira de Estomaterapia (SOBEST) — sobest.com.br
- European Pressure Ulcer Advisory Panel (EPUAP) — Quick Reference Guide 2019
Revisado clinicamente por

Dra. Patricia Puccetti Pires
Supervisora médica do Kuidar+. Residências em Clínica Médica e Geriatria pelo Hospital das Clínicas da USP, onde permanece discutindo casos com residentes de Geriatria. Pós-graduação em Cuidados Paliativos pelo IEP do Hospital Sírio-Libanês. Coordenadora das pós-graduações de Clínica Médica e Geriatria pela EBRAMED e professora de Geriatria pela Afya.
Sobre o autor
Conteúdo baseado em evidências sobre cuidados, direitos e bem-estar para famílias que enfrentam Alzheimer e outros tipos de Demência.
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