Donepezila, Rivastigmina e Memantina: Guia para Famílias
Os remédios para Alzheimer não curam, mas retardam o declínio. Entenda como cada um funciona, efeitos colaterais e como acessar pelo SUS.
Quando o médico prescreve donepezila, rivastigmina ou memantina para um familiar com Alzheimer ou outro tipo de demência, surgem perguntas que nem sempre há tempo de esclarecer na consulta: como esse remédio age no cérebro? O que posso esperar? Quanto tempo até ver alguma diferença? E se não adiantar? Este guia responde a essas perguntas em linguagem acessível, sem substituir a orientação médica — nosso papel é ajudá-lo a chegar à próxima consulta com mais informação e com as perguntas certas para fazer ao especialista.
Como o Alzheimer afeta a química cerebral
Para entender por que esses medicamentos existem, é útil saber o que acontece no cérebro com a progressão do Alzheimer e outros tipos de demência. Duas alterações químicas são especialmente relevantes:
Queda da acetilcolina: a acetilcolina é um neurotransmissor essencial para memória, atenção e aprendizado. No Alzheimer, os neurônios que produzem acetilcolina são destruídos progressivamente, e os níveis dessa substância caem. Parte do declínio cognitivo está diretamente ligada a essa queda.
Hiperativação do glutamato: o glutamato é o principal neurotransmissor excitatório do cérebro. Em excesso — o que ocorre em estágios moderados e avançados de demência — ele ativa de forma anormal receptores chamados NMDA, causando dano neuronal. Esse processo é chamado de excitotoxicidade.
Cada classe de medicamento age em um desses mecanismos.
Inibidores da colinesterase: donepezila e rivastigmina
A donepezila (Aricept e genéricos) e a rivastigmina (Exelon e genéricos) pertencem à mesma classe: os inibidores da colinesterase. A colinesterase é uma enzima que quebra e elimina a acetilcolina após seu uso. Ao inibir essa enzima, os medicamentos fazem com que a acetilcolina disponível permaneça mais tempo nas sinapses — não produzem mais acetilcolina, mas aproveitam melhor a que ainda existe.
Quando são indicados: o uso padrão é no Alzheimer leve a moderado (estágio inicial a intermediário). A rivastigmina também é aprovada para demência associada à doença de Parkinson. Em alguns casos, o médico mantém o inibidor de colinesterase mesmo nas fases mais avançadas, avaliando a relação risco-benefício individualmente.
O que esperar: esses medicamentos não revertem o Alzheimer e não curam. O que estudos clínicos mostram, de forma consistente, é que eles podem retardar o declínio cognitivo e funcional — ou seja, a pessoa pode manter um pouco mais de autonomia e memória por um período mais longo do que manteria sem o medicamento. Alguns cuidadores relatam melhora discreta em atenção, reconhecimento de familiares ou iniciativa. Outros não percebem diferença visível. Ambos os cenários são válidos — a ausência de piora acelerada já é um resultado.
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Efeitos colaterais dos inibidores de colinesterase
Por aumentar a ação da acetilcolina em todo o corpo (não só no cérebro), esses medicamentos podem causar efeitos no sistema digestivo:
- Náuseas, vômitos, diarreia — especialmente no início do tratamento e ao aumentar a dose
- Perda de apetite e peso
- Câimbras musculares (menos frequente)
- Bradicardia (coração mais lento) — atenção especial em idosos com doenças cardíacas ou uso de outros medicamentos que afetam o ritmo
A maioria dos efeitos gastrointestinais diminui após algumas semanas de adaptação. Se forem intensos, comunique o médico — pode ser necessário ajustar a dose ou mudar a formulação.
Rivastigmina em adesivo: quando faz diferença
A rivastigmina existe em duas formas: oral (cápsulas) e transdérmica (adesivo de pele). A diferença não é apenas de conveniência — estudos mostram que o adesivo causa aproximadamente 50% menos efeitos gastrointestinais comparado às cápsulas, porque a absorção é gradual e contínua, sem picos de concentração.
O adesivo tem vantagens adicionais relevantes para a demência:
- Mais fácil de administrar quando a pessoa recusa comprimidos ou tem dificuldade para engolir (disfagia)
- Elimina o risco de a pessoa cuspir ou esconder o medicamento
- Mudança diária com horário fixo facilita a rotina do cuidador
O local de aplicação deve ser alternado (costas, braço, peito) para evitar irritação da pele. Nunca coloque dois adesivos ao mesmo tempo — o risco de superdosagem é real.
Memantina: o mecanismo diferente
A memantina (Ebix, Alois e genéricos) age de forma completamente diferente dos inibidores de colinesterase. Ela bloqueia parcialmente os receptores NMDA do glutamato, reduzindo a excitotoxicidade — o dano causado pelo excesso de estimulação.
Quando é indicada: em geral, a partir do estágio moderado a grave do Alzheimer. Pode ser usada em monoterapia (sozinha) ou em combinação com um inibidor de colinesterase. O médico decide com base no estágio clínico e na tolerância do paciente.
O que esperar: assim como os inibidores de colinesterase, a memantina retarda o declínio — não o reverte. Alguns cuidadores relatam melhora em agitação e comportamento, o que pode estar relacionado ao efeito neuroprotetor nos estágios mais avançados.
Efeitos colaterais: em geral bem tolerada. Os mais relatados são tontura, confusão mental (paradoxalmente, mais comum no início), dor de cabeça e constipação. Tontura pode aumentar o risco de quedas — fique atento nas primeiras semanas.
Por que o médico pode trocar ou combinar medicamentos
Não é incomum que o esquema terapêutico mude ao longo do tempo. Algumas razões frequentes:
- Progressão da doença: o médico pode adicionar memantina quando o paciente avança de leve para moderado
- Intolerância: se os efeitos colaterais forem persistentes, pode-se trocar donepezila por rivastigmina ou vice-versa, ou mudar de oral para adesivo
- Ausência de resposta: se após seis meses não houver nenhum benefício clínico perceptível, o médico pode reavaliar a manutenção
- Interações: com o acúmulo de outros medicamentos, pode ser necessário ajustar
Importante: nunca suspenda, reduza ou altere a dose por conta própria. A retirada abrupta de inibidores de colinesterase pode precipitar piora clínica rápida. Qualquer mudança deve ser discutida e prescrita pelo médico responsável.
O que nunca fazer sem prescrição médica
- Dobrar a dose achando que "mais é melhor" — o risco de superdosagem é real, especialmente com a rivastigmina em adesivo
- Combinar com outros medicamentos que afetam o sistema nervoso (ansiolíticos, antidepressivos, antihistamínicos) sem avisar o médico — interações podem ser graves
- Usar suplementos "para memória" (ginkgo biloba, ômega-3 em altas doses) sem comunicar — alguns interagem com esses medicamentos
- Suspender abruptamente por decisão própria, mesmo que o familiar pareça "piorado"
Para dúvidas sobre medicação e interações, o farmacêutico clínico é um aliado frequentemente subutilizado. Muitos postos de saúde e UBSs têm esse profissional disponível.
Como acessar pelo SUS
Os três medicamentos — donepezila, rivastigmina e memantina — fazem parte do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Alzheimer do Ministério da Saúde e podem ser obtidos gratuitamente pela farmácia de alto custo do SUS (Componente Especializado da Assistência Farmacêutica).
O processo varia por estado, mas em geral envolve:
- Diagnóstico documentado em laudo médico (com CID-10 e estadiamento pelo MEEM ou CDR)
- Prescrição do médico credenciado (geriatria, neurologia ou psiquiatria, dependendo do estado)
- Formulários LME (Laudo para Solicitação de Medicamentos) preenchidos pelo médico
- Entrega na farmácia de referência do estado
A renovação é periódica (a cada 6 ou 12 meses dependendo do estado) e exige nova avaliação médica. Nunca deixe o estoque zerar — programe a renovação com antecedência de 30 dias.
O acompanhamento regular com geriatra ou neurologista é fundamental não apenas para renovar a prescrição, mas para ajustar o tratamento conforme a evolução da doença — algo que se torna ainda mais importante quando os primeiros sinais de demência já evoluíram para uma fase mais avançada.
Perguntas para levar à próxima consulta
Antes de sair da consulta, certifique-se de ter respostas claras para:
- Em qual estágio da doença meu familiar está? O esquema atual é adequado para esse estágio?
- Quais efeitos colaterais devo observar nas próximas semanas?
- Quanto tempo até esperar alguma diferença, e como vou saber se está funcionando?
- Se eu não perceber melhora, quando devo retornar?
- Existe vantagem em trocar para o adesivo de rivastigmina no nosso caso?
- Como renovar os medicamentos pelo SUS antes do vencimento da receita?
Para idosos que já estão em fase avançada e acamados, o médico também pode discutir com a família os objetivos do tratamento nesse contexto — uma conversa importante que a Kuidar+ pode ajudá-lo a preparar.
Fontes consultadas:
- Ministério da Saúde — PCDT: Doença de Alzheimer
- ANVISA — Bulas aprovadas: Donepezila, Rivastigmina, Memantina
- Alzheimer's Association — Medications for Memory, Cognition and Dementia-Related Behaviors
- Raina P et al. "Effectiveness of cholinesterase inhibitors and memantine for treating dementia: evidence review for a clinical practice guideline." Annals of Internal Medicine, 2008.
Sobre o autor
Conteúdo baseado em evidências sobre cuidados, direitos e bem-estar para famílias que enfrentam Alzheimer e outros tipos de Demência.
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