Donepezila, Rivastigmina e Memantina: Guia para Famílias

    Os remédios para Alzheimer não curam, mas retardam o declínio. Entenda como cada um funciona, efeitos colaterais e como acessar pelo SUS.

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    7 min de leitura
    Por Equipe Kuidar+

    Quando o médico prescreve donepezila, rivastigmina ou memantina para um familiar com Alzheimer ou outro tipo de demência, surgem perguntas que nem sempre há tempo de esclarecer na consulta: como esse remédio age no cérebro? O que posso esperar? Quanto tempo até ver alguma diferença? E se não adiantar? Este guia responde a essas perguntas em linguagem acessível, sem substituir a orientação médica — nosso papel é ajudá-lo a chegar à próxima consulta com mais informação e com as perguntas certas para fazer ao especialista.


    Como o Alzheimer afeta a química cerebral

    Para entender por que esses medicamentos existem, é útil saber o que acontece no cérebro com a progressão do Alzheimer e outros tipos de demência. Duas alterações químicas são especialmente relevantes:

    Queda da acetilcolina: a acetilcolina é um neurotransmissor essencial para memória, atenção e aprendizado. No Alzheimer, os neurônios que produzem acetilcolina são destruídos progressivamente, e os níveis dessa substância caem. Parte do declínio cognitivo está diretamente ligada a essa queda.

    Hiperativação do glutamato: o glutamato é o principal neurotransmissor excitatório do cérebro. Em excesso — o que ocorre em estágios moderados e avançados de demência — ele ativa de forma anormal receptores chamados NMDA, causando dano neuronal. Esse processo é chamado de excitotoxicidade.

    Cada classe de medicamento age em um desses mecanismos.


    Inibidores da colinesterase: donepezila e rivastigmina

    A donepezila (Aricept e genéricos) e a rivastigmina (Exelon e genéricos) pertencem à mesma classe: os inibidores da colinesterase. A colinesterase é uma enzima que quebra e elimina a acetilcolina após seu uso. Ao inibir essa enzima, os medicamentos fazem com que a acetilcolina disponível permaneça mais tempo nas sinapses — não produzem mais acetilcolina, mas aproveitam melhor a que ainda existe.

    Quando são indicados: o uso padrão é no Alzheimer leve a moderado (estágio inicial a intermediário). A rivastigmina também é aprovada para demência associada à doença de Parkinson. Em alguns casos, o médico mantém o inibidor de colinesterase mesmo nas fases mais avançadas, avaliando a relação risco-benefício individualmente.

    O que esperar: esses medicamentos não revertem o Alzheimer e não curam. O que estudos clínicos mostram, de forma consistente, é que eles podem retardar o declínio cognitivo e funcional — ou seja, a pessoa pode manter um pouco mais de autonomia e memória por um período mais longo do que manteria sem o medicamento. Alguns cuidadores relatam melhora discreta em atenção, reconhecimento de familiares ou iniciativa. Outros não percebem diferença visível. Ambos os cenários são válidos — a ausência de piora acelerada já é um resultado.


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    Efeitos colaterais dos inibidores de colinesterase

    Por aumentar a ação da acetilcolina em todo o corpo (não só no cérebro), esses medicamentos podem causar efeitos no sistema digestivo:

    • Náuseas, vômitos, diarreia — especialmente no início do tratamento e ao aumentar a dose
    • Perda de apetite e peso
    • Câimbras musculares (menos frequente)
    • Bradicardia (coração mais lento) — atenção especial em idosos com doenças cardíacas ou uso de outros medicamentos que afetam o ritmo

    A maioria dos efeitos gastrointestinais diminui após algumas semanas de adaptação. Se forem intensos, comunique o médico — pode ser necessário ajustar a dose ou mudar a formulação.


    Rivastigmina em adesivo: quando faz diferença

    A rivastigmina existe em duas formas: oral (cápsulas) e transdérmica (adesivo de pele). A diferença não é apenas de conveniência — estudos mostram que o adesivo causa aproximadamente 50% menos efeitos gastrointestinais comparado às cápsulas, porque a absorção é gradual e contínua, sem picos de concentração.

    O adesivo tem vantagens adicionais relevantes para a demência:

    • Mais fácil de administrar quando a pessoa recusa comprimidos ou tem dificuldade para engolir (disfagia)
    • Elimina o risco de a pessoa cuspir ou esconder o medicamento
    • Mudança diária com horário fixo facilita a rotina do cuidador

    O local de aplicação deve ser alternado (costas, braço, peito) para evitar irritação da pele. Nunca coloque dois adesivos ao mesmo tempo — o risco de superdosagem é real.


    Memantina: o mecanismo diferente

    A memantina (Ebix, Alois e genéricos) age de forma completamente diferente dos inibidores de colinesterase. Ela bloqueia parcialmente os receptores NMDA do glutamato, reduzindo a excitotoxicidade — o dano causado pelo excesso de estimulação.

    Quando é indicada: em geral, a partir do estágio moderado a grave do Alzheimer. Pode ser usada em monoterapia (sozinha) ou em combinação com um inibidor de colinesterase. O médico decide com base no estágio clínico e na tolerância do paciente.

    O que esperar: assim como os inibidores de colinesterase, a memantina retarda o declínio — não o reverte. Alguns cuidadores relatam melhora em agitação e comportamento, o que pode estar relacionado ao efeito neuroprotetor nos estágios mais avançados.

    Efeitos colaterais: em geral bem tolerada. Os mais relatados são tontura, confusão mental (paradoxalmente, mais comum no início), dor de cabeça e constipação. Tontura pode aumentar o risco de quedas — fique atento nas primeiras semanas.


    Por que o médico pode trocar ou combinar medicamentos

    Não é incomum que o esquema terapêutico mude ao longo do tempo. Algumas razões frequentes:

    • Progressão da doença: o médico pode adicionar memantina quando o paciente avança de leve para moderado
    • Intolerância: se os efeitos colaterais forem persistentes, pode-se trocar donepezila por rivastigmina ou vice-versa, ou mudar de oral para adesivo
    • Ausência de resposta: se após seis meses não houver nenhum benefício clínico perceptível, o médico pode reavaliar a manutenção
    • Interações: com o acúmulo de outros medicamentos, pode ser necessário ajustar

    Importante: nunca suspenda, reduza ou altere a dose por conta própria. A retirada abrupta de inibidores de colinesterase pode precipitar piora clínica rápida. Qualquer mudança deve ser discutida e prescrita pelo médico responsável.


    O que nunca fazer sem prescrição médica

    • Dobrar a dose achando que "mais é melhor" — o risco de superdosagem é real, especialmente com a rivastigmina em adesivo
    • Combinar com outros medicamentos que afetam o sistema nervoso (ansiolíticos, antidepressivos, antihistamínicos) sem avisar o médico — interações podem ser graves
    • Usar suplementos "para memória" (ginkgo biloba, ômega-3 em altas doses) sem comunicar — alguns interagem com esses medicamentos
    • Suspender abruptamente por decisão própria, mesmo que o familiar pareça "piorado"

    Para dúvidas sobre medicação e interações, o farmacêutico clínico é um aliado frequentemente subutilizado. Muitos postos de saúde e UBSs têm esse profissional disponível.


    Como acessar pelo SUS

    Os três medicamentos — donepezila, rivastigmina e memantina — fazem parte do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Alzheimer do Ministério da Saúde e podem ser obtidos gratuitamente pela farmácia de alto custo do SUS (Componente Especializado da Assistência Farmacêutica).

    O processo varia por estado, mas em geral envolve:

    1. Diagnóstico documentado em laudo médico (com CID-10 e estadiamento pelo MEEM ou CDR)
    2. Prescrição do médico credenciado (geriatria, neurologia ou psiquiatria, dependendo do estado)
    3. Formulários LME (Laudo para Solicitação de Medicamentos) preenchidos pelo médico
    4. Entrega na farmácia de referência do estado

    A renovação é periódica (a cada 6 ou 12 meses dependendo do estado) e exige nova avaliação médica. Nunca deixe o estoque zerar — programe a renovação com antecedência de 30 dias.

    O acompanhamento regular com geriatra ou neurologista é fundamental não apenas para renovar a prescrição, mas para ajustar o tratamento conforme a evolução da doença — algo que se torna ainda mais importante quando os primeiros sinais de demência já evoluíram para uma fase mais avançada.


    Perguntas para levar à próxima consulta

    Antes de sair da consulta, certifique-se de ter respostas claras para:

    • Em qual estágio da doença meu familiar está? O esquema atual é adequado para esse estágio?
    • Quais efeitos colaterais devo observar nas próximas semanas?
    • Quanto tempo até esperar alguma diferença, e como vou saber se está funcionando?
    • Se eu não perceber melhora, quando devo retornar?
    • Existe vantagem em trocar para o adesivo de rivastigmina no nosso caso?
    • Como renovar os medicamentos pelo SUS antes do vencimento da receita?

    Para idosos que já estão em fase avançada e acamados, o médico também pode discutir com a família os objetivos do tratamento nesse contexto — uma conversa importante que a Kuidar+ pode ajudá-lo a preparar.


    Fontes consultadas:

    Sobre o autor

    Conteúdo baseado em evidências sobre cuidados, direitos e bem-estar para famílias que enfrentam Alzheimer e outros tipos de Demência.

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