Cuidadora ajudando um senhor idoso a organizar seus remédios à mesa

    Remédios que causam demência? O que a ciência diz sobre Rivotril, zolpidem e outros

    Remédio para dormir, ansiedade ou estômago pode causar demência? Veja o que os estudos mostram de verdade e o que fazer antes de mexer em qualquer receita.

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    9 min de leitura
    Por Equipe Kuidar+

    Muitas famílias leem uma manchete do tipo "remédio para dormir causa demência" e ficam com medo, principalmente quando um familiar idoso toma esse remédio há anos. A resposta curta: alguns remédios estão associados a mais risco de problemas de memória, e vários podem causar confusão em idosos. Mas associação não é o mesmo que causa, e parar um remédio por conta própria pode ser perigoso.

    Este artigo explica o que os estudos mostram, remédio por remédio, e o que fazer com essa informação.

    Antes de tudo: nunca suspenda nem mude a dose de um remédio sem falar com o médico que o receitou. Alguns, como os calmantes da família do Rivotril, podem causar reações graves se forem interrompidos de repente.


    Remédio pode causar demência?

    É preciso separar duas situações diferentes.

    1. Remédios que causam confusão e esquecimento, que melhoram quando o remédio é ajustado. Isso é comum em idosos. O corpo mais velho elimina os remédios mais devagar, e a combinação de vários remédios aumenta o efeito. O resultado pode parecer demência: esquecimento, desatenção, sonolência, confusão. Em muitos casos, melhora quando o médico ajusta ou troca o remédio. Veja demência tem cura? Causas reversíveis que vale investigar.

    2. Remédios associados a mais risco de demência a longo prazo. Aqui a pergunta é se o uso por muitos anos aumenta a chance de desenvolver uma demência de verdade, como o Alzheimer. Os estudos sobre isso são, quase todos, observacionais: eles mostram que quem toma um remédio teve mais demência, mas não conseguem provar que o remédio foi a causa.

    Por que isso importa? Porque muitas vezes a doença vem antes do remédio. A ansiedade, a insônia e a depressão podem ser sinais iniciais da demência, anos antes do diagnóstico. Uma pessoa nessa fase recebe um calmante ou um remédio para dormir, e depois o estudo encontra "mais demência em quem tomou o calmante".


    Calmantes: alprazolam, Rivotril (clonazepam), diazepam e outros

    Esses remédios pertencem a um grupo chamado benzodiazepínicos. São usados para ansiedade, insônia e, às vezes, convulsões.

    Causam demência? Não há prova de que causem. Alguns estudos grandes encontraram associação entre o uso prolongado e mais casos de demência; outros, que tentaram corrigir o problema da "doença que vem antes", não encontraram aumento de risco.

    O que se sabe com segurança: em idosos, esses remédios causam sonolência, lentidão, esquecimento, confusão e quedas. Por isso as principais diretrizes de geriatria, como os Critérios de Beers, recomendam evitar o uso em pessoas idosas sempre que possível, especialmente em quem já tem demência.

    Atenção: benzodiazepínicos não podem ser interrompidos de uma vez depois de um uso prolongado. A retirada precisa ser gradual e orientada pelo médico, porque a parada brusca pode causar ansiedade intensa, insônia, agitação e até convulsões.


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    Remédios para dormir: zolpidem e similares

    O zolpidem (e remédios parecidos, chamados de "drogas Z") é muito usado para insônia.

    Causa demência? A evidência é fraca e de estudos observacionais. Também aqui a insônia pode ser um sinal precoce da própria doença.

    O que se sabe com segurança: em idosos, o zolpidem aumenta o risco de quedas, fraturas, confusão noturna e comportamentos estranhos durante o sono (levantar, comer ou andar sem lembrar depois). Por isso também está na lista de remédios a evitar em idosos.

    Para quem tem demência e dorme mal, há medidas sem remédio que ajudam muito. Veja sono no Alzheimer: por que a noite fica difícil.


    Remédios anticolinérgicos: amitriptilina e outros

    "Anticolinérgico" é o nome de um efeito que vários remédios têm em comum: eles bloqueiam a acetilcolina, uma substância importante para a memória. É justamente a substância que alguns remédios para Alzheimer tentam aumentar.

    Exemplos comuns:

    • Alguns antidepressivos, como a amitriptilina e a paroxetina
    • Remédios para bexiga hiperativa, como a oxibutinina
    • Alguns antialérgicos antigos, como a prometazina e a dexclorfeniramina
    • Alguns remédios para Parkinson e para enjoo

    Causam demência? Este é o grupo com a evidência mais consistente. Um estudo grande publicado em 2019 encontrou mais demência em pessoas que usaram anticolinérgicos fortes por anos, principalmente antidepressivos, remédios para bexiga e para Parkinson. Ainda assim, é uma associação, não uma prova.

    O que se sabe com segurança: em idosos, esses remédios causam boca seca, prisão de ventre, retenção urinária, visão borrada e confusão. O efeito se soma: quanto mais remédios anticolinérgicos a pessoa toma juntos, maior a chance de confusão. Em quem já tem demência, podem piorar a memória e a atenção.


    Remédios para o estômago: omeprazol e pantoprazol

    Os "protetores de estômago" (omeprazol, pantoprazol e similares) estão entre os remédios mais usados por idosos.

    Causam demência? Provavelmente não. Um estudo de 2016 chamou atenção ao encontrar associação, mas estudos posteriores, mais cuidadosos, não confirmaram aumento de risco de demência.

    Mesmo assim, vale revisar: o uso por muitos anos sem indicação clara pode reduzir a absorção de vitamina B12, e a falta de B12 pode afetar a memória. Pergunte ao médico se o remédio ainda é necessário e se vale dosar a vitamina B12.


    E a quetiapina, a sertralina e outros?

    Quetiapina e outros antipsicóticos: não há evidência de que causem demência. Mas em pessoas que já têm demência, eles aumentam o risco de AVC, quedas e morte, e por isso devem ser usados com muito critério. Veja antipsicóticos no Alzheimer: riscos e quando são indicados.

    Sertralina: não há boa evidência de que cause demência. Tem pouco efeito anticolinérgico e é um dos antidepressivos mais usados em idosos. Tratar a depressão, aliás, faz bem à memória.


    Sinais de que um remédio pode estar causando confusão

    Fale com o médico se notar:

    • Piora da memória ou da confusão depois de começar ou aumentar um remédio
    • Sonolência durante o dia, lentidão ou fala arrastada
    • Quedas ou tonturas novas
    • Agitação ou confusão que pioram à noite
    • Boca seca, prisão de ventre ou dificuldade para urinar, junto com confusão

    Uma confusão que aparece de repente, em horas ou poucos dias, pode ser delirium, que é uma urgência médica. Veja delirium ou demência: como diferenciar.


    O que fazer, na prática

    1. Não pare nenhum remédio por conta própria. Isso vale principalmente para calmantes, antidepressivos e remédios para dormir.
    2. Faça uma lista completa de tudo o que a pessoa toma. Inclua remédios receitados por médicos diferentes, remédios comprados sem receita, colírios, chás e suplementos.
    3. Peça uma revisão dos remédios. Leve a lista à consulta e pergunte: "Algum desses pode estar afetando a memória? Algum ainda é necessário? Há opção mais segura para idosos?" O geriatra é o profissional mais indicado para isso. Veja quando procurar um geriatra.
    4. Pergunte sobre alternativas sem remédio. Para insônia e ansiedade, rotina, luz do dia, atividade física e higiene do sono costumam ser o primeiro passo.
    5. Organize as doses. Erros de dose e remédios duplicados são causas comuns de confusão. Veja como organizar os remédios e evitar erros.

    Como a Kuidar+ pode ajudar

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    Perguntas frequentes (FAQ)

    Alprazolam causa demência?

    Não há prova de que cause. Alguns estudos encontraram associação com o uso prolongado, outros não. O que é certo é que, em idosos, o alprazolam pode causar sonolência, esquecimento e quedas. Não pare de tomar sem orientação médica.

    Rivotril (clonazepam) causa Alzheimer?

    Não há prova de que cause Alzheimer. Como outros calmantes da mesma família, pode causar confusão e quedas em idosos, e a retirada precisa ser gradual e orientada pelo médico.

    Zolpidem causa demência?

    A evidência é fraca. O zolpidem aumenta o risco de quedas e confusão noturna em idosos, e por isso é desaconselhado nessa faixa de idade. Converse com o médico sobre alternativas.

    Amitriptilina causa demência?

    A amitriptilina tem efeito anticolinérgico forte, e esse grupo de remédios tem a associação mais consistente com demência nos estudos. Em idosos, muitas vezes há alternativas mais seguras. Pergunte ao médico antes de qualquer mudança.

    Pantoprazol ou omeprazol causam demência?

    Os estudos mais recentes não confirmam esse risco. Ainda assim, vale perguntar ao médico se o uso prolongado é necessário e se a vitamina B12 está em dia.

    Se a pessoa já tem demência, o remédio pode piorar?

    Sim. Calmantes, remédios para dormir e anticolinérgicos podem piorar a memória, a atenção e a confusão de quem já tem demência. Uma revisão dos remédios com o médico é uma das medidas mais úteis nesses casos.


    Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde. Decisões sobre remédios são sempre do médico responsável.

    Fontes:

    • American Geriatrics Society. 2023 Updated AGS Beers Criteria for Potentially Inappropriate Medication Use in Older Adults. J Am Geriatr Soc, 2023.
    • Billioti de Gage S et al. "Benzodiazepine use and risk of Alzheimer's disease: case-control study." BMJ, 2014.
    • Gray SL et al. "Benzodiazepine use and risk of incident dementia or cognitive decline: prospective population based study." BMJ, 2016.
    • Coupland CAC et al. "Anticholinergic drug exposure and the risk of dementia: a nested case-control study." JAMA Internal Medicine, 2019.
    • Gomm W et al. "Association of proton pump inhibitors with risk of dementia." JAMA Neurology, 2016.
    • Gray SL et al. "Proton pump inhibitor use and dementia risk: prospective population-based study." J Am Geriatr Soc, 2018.

    Sobre o autor

    Conteúdo baseado em evidências sobre cuidados, direitos e bem-estar para famílias que enfrentam Alzheimer e outros tipos de Demência.

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